Duas espécies novas de Laelia rupícolas

L. alvaroana Miranda
L. munchowiana Miranda

 
Francisco E. Miranda
 
Biólogo
Mestre em Botânica pelo Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)

 

 

 

As chamadas laelias rupículas, como são melhor conhecidas as espécies da seção Parviflorae não param de surpreender. O grupo tem sido exaustivamente explorado e quase todas as suas espécies encontradas nos habitats, e sempre que se acha que nada de novo pode ainda ser encontrado novas plantas aparecem das regiões mais inesperadas. No primeiro caso, a surpresa fica por conta do fato de que o Estado do Rio de Janeiro é muito pobre em espécies do grupo. No segundo caso, esta é a primeira espécie com flores róseas a roxas a ser encontrada no Estado do Espírito Santo, um tanto rico em espécies com flores amarelas e alaranjadas.


 

Laelia alvaroana Miranda sp. nov.

 

Foto/Photo: Francisco Miranda

Rupicola pro sectione intermedia, differt ab Laelia mixta follis transverse rugosis tantum reflexis inflorescentia plus laxiflora floribus minoribus labello plus minusve rubro striato marginibus lobo frontali fine undulatis vice lobatis.

Rupícola medianamente robusta na seção. Raízes com até 2,5 mm de diâmetro. Pseudobulbos formados por 3-4 entrenós, cilíndricos, espessados bruscamente na base, atenuados progressiva e longamente para o ápice, apresentando seção circular, verde-médios algumas vezes mais ou menos tenuemente pigmentados em purpúreo, com até 20 cm de comprimento e 1,6 cm de largura na base, revestidos por bainhas fortemente apressas que secam e se desfazem mais de um ano após o término de seu desenvolvimento. Folhas linear-lanceoladas, fortemente coriáceas e transversalmente rugosas, aplanadas e ligeiramente reflexas, verde-médias com maior ou menor intensidade de pigmentação purpúrea na face inferior, com até 17 cm de comprimento e 2,5 cm de largura. Espatas florais bem desenvolvidas, coriáceas e fortemente achatadas, linear-oblanceoladas, tenuemente ventricosas, com até 7 cm de comprimento e 5 mm de largura. Inflorescências com flores abrindo em média sucessão, até 8+ floras, verdes às vezes com tenues matizes purpúreos, eretas, com ráquis de até 50 cm de comprimento e 3 mm de diâmetro. Brácteas florais apressas aos pedicelos, triangulares, com até 3 mm de comprimento. Pedicelos cilíndricos, alaranjado-claros, mais escuros e verdes na porção do ovário, com até 5 cm de comprimento e 2 mm de diâmetro na porção incluindo o ovário. Sépalas amarelo-alaranjadas, linear-lanceoladas, ereto-atentes, um tanto reflexas, inicialmente formando triângulo que não chega a equilátero devido às laterais mais fechadas e estas ligeiramente falcadas, a dorsal com até 2,4cm de comprimento e 6mm de largura e as laterais com até 2cm na dorsal e 6mm de largura. Pétalas com a mesma coloração, linear-oblanceoladas, ereto-patentes, tenuemente falcadas, planas a reflexas com bordos lisos a ligeiramente ondulados, com até 2,4cm de comprimento e 5mm de largura. Labelo sublanceolado em posição distendida, profundamente trilobado, com lobos laterais sublanceolados com ápices longamente agudos, falcados e quase tão longos quanto o lobo frontal subcircular com margens fortemente onduladas e a ele ligados por istmo até 3,5mm longo e cujas margens se voltam para cima ficando mais altas do que as quilhas, na base mais estreito e progressivamente se alargando em direção ao lobo frontal, em posição natural formando tubo arcado para baixo e para trás que envolve de modo completo a coluna e a ocultando em vista frontal, abrindo-se frontalmente de forma subriangular com suas margens fortemente onduladas, lobos laterais decurrentes e pouco distendidos e lobo frontal um tanto reflexo, em seu interior com 4 quilhas que se tornam progressivamente muito altas à altura do istmo, carnosas, achatadas lateralmente e paralelas que se originam próximas à base do labelo, as 2 externas mais curtas e se estendendo até a junção do istmo com o lobo frontal onde se bifurcam, divergem e progressivamente ficam mais baixas para dentro e até 1/3 deste, as 2 internas se estendendo até quase 3/4 deste, apresentando células globosas baixas por toda a superfícia interna, com até 1,6 cm de comprimento e 1,1cm de largura; a coloração é amarelo-alaranjada com venulações alaranjadas a vermelhas nos lobos laterais, alaranjada com venulações mais escuras o lobo frontal e amarelada na porção central, istmo e quilhas. Coluna amarelo-alaranjada, subcilíndrica tenuemente mais larga na porção central e com tenue constricção próxima à base, gibosa, linear tenuemente falcada, subtriangular em seção com face inferior muito fortemente depressa, e 2 prolongamentos laterais do rostelo envovlendo as laterais da antera quase toalmente, com até 8 mm de comprimento e 3mm de largura na porção média; antera com 4 cavidades, amarelo-alaranjada, com políneas amarelas, 4 maiores e 4 metade menores; cavida estigmática profunda, subtriangular, separada da antera por rostelo espessado em membrana saliente carnosa e flexível, com 1,8mm de comprimento e 1,6mm de largura. Fruto não observado.

Etimologia: Homenagem a Álvaro Pessoa, membro da Sociedade de Orquidófilo do Rio de Janeiro, que forneceu o material vivo a partir do qual o tipo da espécie foi preparado.

TYPUS: BRASIL, Estado do Rio de Janeiro; coll. Miranda l389, 6 I l994, a partir de material vivo fornecido por Álvaro Pessoa, com procedência mencionada na serra dos Órgãos, arredores de Casemiro de Abreu, Estado do Ro de Janeiro (HOLOTYPUS; HB).

PARATYPUS: RIO DE JANEIRO: Santa Maria Madalena, Pedra das Flores, 1200 m/sm, coll. S. Lima & A. C. Brade 13326, 4 mar l934, (RB 28932 - flores muito pequenas).

Laelia alvaroana é espécie muito interessante por suas afinidade e área de ocorrência. Para começar, é a segunda espécie de Parviflorae confirmada para o Estado do Rio de Janeiro, onde espécies deste grupo são um tanto raras. A espécie ocorre na Serra dos Órgãos, região de Casemiro de Abreu a Santa Maria Madalena, a uma altitude de 500-1200 m/sm, em campos sobre rocha inclinada. Entretanto, não é a primeira vez que a espécie encontrada. Ao examinarmos, há alguns anos, os materiais no herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, chamou a atenção um material identificado como Laelia cinnabarina Batem. ex. Lindl. que era muito discrepante. Laelia cinnabarina é uma das espécies com mais ampla distribuição na seção, e assim é muito variável em termos morfológicos e florais, como é de se esperar. Entretanto, neste material, as flores tinham metade das dimensões das menores já encontradas na espécie. Como não havia modo de se precisar entre outras coisas a cor das flores, a primeira idéia foi a de que esta era uma forma extrememante pequena da espécie, conclusão a que se pode chegar por causa dos longos lobos laterais do labelo, e o material ficou para futuros estudos. A oportunidade de esclarecer o caso surgiu há pouco mais de 4 anos atrás quando recebemos material florido por intermédio de Álvaro Pessoa, e poucos meses depois pudemos examinar mais material florido da espécie por cortesia de Maurício Verboonen, do tradicional orquidário Binot. Estes materiais eram bem semelhantes em termos vegetativos e florais, de modo que pode-se supor que vieram de uma mesma localidade. Para começar, as flores variam muito pouco em tamanho, o que descarta a possibilidade de ter sido o material anteriormente citado um exemplar aberrante. Em segundo lugar, o que prontamente separa esta espécie de Laelia cinnabarina são as flores. Em termos de coloração, estas não são cinnabarinas a vermelhas como naquela, mas antes apenas ligeiramente alaranjadas. Além disso, os segmentos são falcados e reflexos nesta nova espécie. A semelhança maior da espécie é, na verdade, com Laelia mixta Hoehne, espécie nativa do Espírito Santo e muito pouco conhecida. A disjunção das populações e diferenças morfológicas, entretanto, as separam. Em termos vegetativos, as folhas em Laelia alvaroana apresentam rugosidades transversais muito nítidas as quais são ausentes em Laelia mixta. Comparadas a esta, as flores de Laelia alvaroana, além de bem menores e mais espaçadas na haste, apresentam lobo frontal com margens finamente onduladas quando lá mostram poucas e fortes ondulações. A coloração é também diferente, já que em Laelia mixta vão de amarelo-claro a intenso. Como as flores apresentam venulações vermelhas mais ou menos intensas nos lobos laterais do labelo e no lobo frontal (intensidade variável de acordo como o indivíduo), estas acabam sendo um tanto semelhantes, também a uma primeira vista, às de Laelia bahiensis Schltr. Com isso, não há dúvida de que esta uma espécie é bem típica e um interesante acréscimo à flora orquidológica do Estado do Rio de Janeiro. A época de floração é dezembro-março.

 

Laelia munchowiana Miranda sp. nov.


Rupicola pro sectione Modestissima, differt ab Laaelia pfisteri et speciebus affinibus floribus plus minoribus inflorescentia longissime sucessive sepalis forte reflexis petalis anticies projectis labelllo cum lobo forntali proportione amplo tantum rotundo et plano.

Rupícola entre as menos robustas da seção. Raízes fasciculadas, com até 2,5mm de diâmetro. Pseudobulbos formados por 2-3 entrenós, cilíndricos, espessados bruscamente em sua base, atenuados progressivamente para o ápice, apresentando seção circular, verde-escuros geralmente mais ou menos fortemente pigmentados em purpúreo, com até 4cm de comprimento e 1,5cm de largura na base, revestidos por bainhas fortementes apressas que secam e se desfazem ao término de seu desenvolvimento. Folhas linear-lanceoladas, fortemente coriáceas, medianamente acanoadas, ligeiramente reflexas, verde-escuras com maior ou menor intensidade de pigmentação purpúrea na face inferior e bordos, com até 9cm de comprimento e 2,2 cm de largura. Espatas florais bem desenvolvidas, medianamente coriáceas e fortemente achatadas, linear-oblanceoladas, tenuemente ventricosas, secas na floração, com até 4cm de comprimento e 7mm de largura. Inflorescências com flores abrindo em muita longa sucessão de modo que quando as últimas se abrem a haste por ter sua metade inferior já só com as brácteas das flores já fenecidas, até 20+ floras, verdes com matizes rosadas e arroxeados, eretas, com ráquis de até 50cm de comprimento e 3mm de diâmetro. Brácteas florais apressas aos pedicelos, tringulares com até 5mm de comprimento. Pedicelos cilíndricos, esverdeados a rosados, mais escuros na porção do ovário,com até 2,5cm de comprimento e 1,3 mm de diâmetro na porção incluindo o ovário. Sépalas róseo-magentas, linear-lanceoladas na dorsal a lanceoladas nas laterais, ereto-patentes, um tanto reflexas, inicialmente formando triângula equilátero mas as laterais falcadas e assim tendo a convergir, com até 1,5cm comprimento e 3mm de largura na dorsal e 1,2mm de comrpimento e 3,5mm de largura nas laterais. Pétalas com a mesma coloração, linear-oblanceoladas, ereto-patentes, um tanto falcadas, planas e com bordos lisos, com até 1,4cm de comprimento e 2,22 mm de largura. Labelo sublanceolado, em posição distendida, pronunciadamente trilobado, com lobos laterais lanceolados, falcados às vezês quase tão longos quanto o frontal e o lobo frontal subelíptico a subcircular profundamente inciso e aparentemente séssil, em posição natural formando tubo ligeiramente arcado para baixo e que envolve de modo completo a coluna e a ocultando em vista frontal, abrindo-se frontalmente de forma subelíptica com suas margens fortementes onduladas, lobos laterais decurrentes não distendidos e lobo frontal pouco reflexo, em seu interior com 4 quilhas baixas, carnosas, verrucosas e paralelas que se originam na base do labelo e se elevam à partir do meio deste, as 2 externas mais curtas se adentrando pouco no lobo frontal, as 2 internas se estendenddo até quase metade daquele, apresenando célublas globosas baixas por toda a superfície interna, com até 1cm de comprimento e 7,5mm de largura; a coloração é róseo-magenta nos lobos laterais e bordo do lobo frontal com nervuras mais escuras no lobos laterais, e alva na porção central, quilhas e disco, áreas onde só as nervuras magenta se destacam. Coluna esverdeada a rosada, subcilíndrica tenuemente mais larga para a base, gibosa, tenuemente falcada, subtringular em seção com face inferior achatada e fortemente depressa, e 2 prolongamentos laterais do rostelo envolvendo as laterais da antera até menos da metade, com até 6,5 mm de comprimento e 2,2 mm de largura; antera com 8 cavidades, rosada, com políneas amarelas, 4 maiores e 4 um pouco menores; cavidade estigmática profunda, subtringular, separada da antera por rostelo espessado em membrana saliente carnosa e flexível, com 1,5mm de comprimento e 1,5mm de largura.Fruto jovem observado, com 5 cm de comprimento e 5 mm de largura.

Etimologia: Homenagem a Daniel Munchow, orquidófilo do Espírito Santo, que localizou pela primeira vez a espécie na natureza.

TYPUS: Brasil, Estado do Espírito Santo; coll. Miranda l404, 4 IX l997, a partir de material vivo florido em propriedade do Wladislaw Zaslawsky, com procedência da Serra do Crenaque, arredores de Baixo Guandu (HOLOTYPUS: HB).

Laelia munchowiana é uma adição muito interessante à seção Parviflorae pelo fato de ser a primeira espécie da seção com flores róseas a roxas a aparecer no Espírito Santo, apesar de que sua área dde ocorrência é muito próxima ao Estado de Minas Gerais. A uma primeira observação, esta nova espécie lembra vagamente um exemplar extemamente raquítico ou uma miniatura de Laelia pfisteri, mais pelas hastes altas com flores roxas de segmentos estreitos do que por qualuqer real afinidade morfógica. Uma melhor observação, porém, mostra que as duas espécies são na verdade bastante distanciadas. As plantas desta nova espécie são de três a cinco vezes menores que as de Laelia pfisteri, e as inflorescências abrem as flores em sucessão extremamente longa, de modo que quando secam apresentam marcas de até mais de 20 flores espaçadas. Quando as últimas flores se abrem, as primeiras já feneceram á muito. Estas inflorescências secas mostram que floriram nos últimos três quintos da haste, fato único em espécies de Parviflorae com hastes longas, que geralmente florescem acima da metade e muito mais freqüêntemente do último terço ao último quinto da haste (isto é, as flores se agrupam para o topo inflorescência). AS flores estão entre as menores da seção, e apresentam sépalas recurvando-se para trás e pélatas um tanto projetadas para frente; o labelo apresenta lobo frontal proporcionalemnte grande, redondo e quase plano, sendo assim a parte mais vistosa da flor. Com isso tudo, a espécie deve ser considerada muito mais como curiosidade do que como elemento ornamental. Na verdade, poucas são as espécies da seção com flores roxas pequenas e hastes florais altas, de modo que realmente esta nova espécie deve ser considerada como bastante isolada entre as Parviflorae. Sua época de floração vai de julho de agosto, e as plantas se mantém em flor por período até mais de dois meses devido à longa sucessão de suas inflorescências.

 

Bibliografia: Bradea (boletim do Herbarium Bradeanum)
volume VIII - 26 de julho de 1999 número 22